Kaixoteca SX Resenha - Samurai X (Rurouni Kenshin)

Um dos animes que marcaram minha infância foi, sem dúvidas, Samurai X. Eu adorava acompanhar as aventuras do andarilho Kenshin Himura e seus amigos. Eu sempre me senti fascinado pela cultura japonesa, que considero uma das mais ricas do mundo, principalmente pela valorização da honra que os japoneses possuem correndo em suas veias. Voltar a assistir a esse anime sob a perspectiva de um adulto foi uma experiência muito interessante.

Após vagar dez anos pelo Japão, ninguém poderia dizer que Kenshin Himura fosse nada além de um pobre andarilho. Contudo, Kenshin tem um passado: ele era um samurai lendário conhecido como “Battousai, o Retalhador”, que ajudou os monarquistas a derrubar a Era Tokugawa e instaurar a Era Meiji. Arrependido das inúmeras mortes pelo qual foi responsável, Kenshin decide nunca mais matar e usar sua habilidade com a espada (chamada de Hiten Mitsugugi) para proteger as pessoas. O seu destino se cruza com o de Kaoru Kamiya, mestre do estilo Kamyia Kashin , que o convida a permanecer em seu Dojo. O passado de Kenshin como retalhador continua a lhe trazer inúmeras consequências, e é a partir dessa premissa que a história se desenvolve.

Quando assisti ao anime quando era mais novo, acreditava que o enredo era extemamente maduro, que a história era até certo ponto adulta (principalmente pela violência). O que acontece é que, na verdade, o enredo é relativamente simples, as cenas de violência não são tão gráficas, os vilões são bem caricaturais (com excessão de Makoto Shishio e alguns de seus servos, que abordarei mais adiante), de modo a não afastar o público mais novo. É basicamente uma história de adultos feita para crianças.

Um dos pontos fracos do anime se diz respeito a invunerabilidade de Kenshin. O samurai é retratado quase como um Deus guerreiro, invencível, sábio, e isso diminui a sensação de perigo que a série poderia explorar: quase sempre temos certeza que Kenshin vai derrotar seus adversários, e, até o final do segundo ato do anime, o protagonista vence seus inimigos quase sem sofrer lesões sérias.

Essa onipotência de Kenshin acaba enfraquecendo a força de seus inimigos, que podem ser divididos entre coadjuvantes que somente cumprem o papel de fortalecer o poder de Battousai para o espectador em subtramas bobas e aqueles que realmente exercem um papel importante no enredo. Sobre esses últimos, Makoto Shishio se destaca como o principal antagonista do anime, e é um dos poucos personagens multidimensionais do enredo (junto de seu leal aprendiz Soujirou Seta e Aoshi Shinomori): frio, sanguinário mas extremamente inteligente, Shishio age por motivos nobres e pensando no bem da nação Japão (o que é reconhecido pelo próprio Kenshin), com uma premissa interessante sobre a seleção natural. Além disso, por ter seu corpo carbonizado pelos oficiais da monarquia, Shishio apresenta uma vulnerabilidade que o torna verossímel, além de justificar a sua raiva contra o novo regime, pois carrega as lembranças de seus inimigos em sua pele. Além disso, o fato de ser temido e subjulgar guerreiros temidos e poderosos o faz carregar uma aura de super-matador terrível, sendo um dos poucos momentos em que tememos pela vida de Kenshin.

Contudo, se a trama de Shishio se revela como um dos momentos marcantes do anime, isso não pode ser dito sobre o enredo como um todo, que se revela irregular. Muitos episódios são adicionados somente para aumentar a extensão do anime, desviando o foco do enredo, que poderia muito bem se concentrar no primeiro e segundo atos (a trama de Aoshi e Shishio, respectivamente). Após a definição da trama de Shishio, a trama se concentra em histórias bobas e curtas que nada acrescentam ao que vinha sido desenvolvido até então, apenas para manter o espectador assistindo ao anime (até mesmo a subhistória envolvendo o Cristianismo e intolerância religiosa se revela melodramática e superficial). Gostaria muito que, seguindo a tendência de animes como Dragon Ball e Sailor Moon, o anime ganhasse uma versão atual concentrando-se apenas na trama principal.

O que mantém o espectador assistindo aos episódios é um dos pontos fortes do anime: o carisma de Kenshin e de quase todos os personagens secundários. Como não gostar da amorosa e dedicada Kaoru, do desmiolado e leal Sanosuke, do orgulhoso e juvenil Yahiko, da linda e pragmática Megumi, da inocente e sagaz Misao e de tantos outros personagens que nos fazem imaginar o porquê de Kenshim querer sacrificar sua vida para mantê-los salvo. A interação entre os personagens, além de render situações muito engraçadas, soam autênticas, além de funcionar como alívio cômico dentro de uma trama que pode ser considerada pesada demais para os mais novos.

“Samurai X¨ é um anime irregular, é verdade, mais ainda assim vale a pena de ser conferido. É um retrato interessante de um período da história japonesa, possui personagens interessantes, alguns antagonistas fascinantes e, acima de tudo, um inesquecível protagonista.